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Resenha: Casa de Orates/ Itajaí – 19/04/08

abril 22, 2008

Abriram os portões do hospício

Felipe Damo, especial para o blog Mundo 47 

 

Sábado é um dia sempre repleto de possibilidades. Era o dia ideal para assistir ao show da Trupe Sonora Casa de Orates, uma mistura contemporânea de Mutantes, Secos e Molhados e Jethro Tull. Tudo bem, rotular não é legal, mas foi uma pista para tentar aproximar o leitor dos caras que encheram pela segunda vez o Teatro Municipal de Itajaí, que não é pequeno, e receberam os aplausos em pé de uma platéia diferente, mas bastante motivada.

Com um som mais pra mambembe medieval do que para rock psicodélico – quem discordar que vá ouvir Jefferson Airplane e depois a gente conversa – o show da Casa de Orates ganha pelo conjunto. É bem montado e dentro daquilo que a que se propõe, levar o espectador a uma viagem musical pelo mundo dos sonhos, os caras mandam bem. Usam com maestria os artifícios cenográficos, dentro de uma linguagem teatral que confere ao espetáculo uma noção de começo, meio e fim (???). Em resumo, dá pra se divertir numa boa além de ver algo no mínimo diferente do que se encontra aí pelo mainstream.

Mas, vamos falar das músicas, já que não se trata de um grupo teatral nem de uma companhia de ballet clássico. As letras são uma doideira que deixariam Syd Barrett com cara de careta. Pronto, falei. Contam histórias de sonhos, de viagens existenciais e de outras bizarrices. No meio da apresentação um deslize: rimaram “papel” com “léu”. Ô, pessoal, que coisa mais Sérgio Reis! Ele já usou essa rima lá na década de sessenta em Coração de Papel! Mas tudo bem, pula. Como diria meu amigo Flávio, “rima com rima, comi tua prima!”. Uma coisa interessante, durante o show você não sabe muito o que é música e o que é roteiro do espetáculo, os caras vão tocando, vão cantando, vão falando, e você vai sendo levado. Gostei disso.

 Já as melodias podem ser conferidas no site da banda http://www.casadeorates.com.br , onde ainda é possível baixar os arquivos em mp3 e comprar o cd “O Artesão dos Sonhos”. O grande destaque e diferencial da banda no aspecto melodia é uma maldita flauta que fica tocando dentro da tua cabeça horas depois do show terminar. A combinação flauta com rock progressivo (argh, pros chatos progressivos!!) até que ficou legal. Foi usada na medida certa, sem abuso. No mais, foi um belo espetáculo. É sempre bom ver crianças, jovens e pessoas de mais idade curtindo música de verdade. Embora o show fosse gratuito, fiquei com aquela impressão de que não joguei fora o dinheiro do ingresso.

 Em tempo: a abertura do show ficou por conta do cada-vez-mais-versátil-multi-artista-e-quase-super-herói Rafaelo de Góes e de Mano, o polegar cantor (mas também, quem vocês esperavam que fosse abrir a porta do manicômio, hein?)

 

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Resenha: Bárbara Damásio canta Chico – 06/04

abril 7, 2008

A jovem cantora Bárbara Damásio, 21 anos, de Itajaí, subiu ao palco do Teatro Municipal na noite deste domingo para mais uma edição do seu “Bárbara canta Chico”. Quem esteve no Municipal teve a chance de ouvir uma das mais belas vozes da região, que com o tempo e trabalho pode ser destaque em todo país.

Se no repertório de Chico Buarque sobram composições espetaculares e populares que facilitam a escolha do repertório para uma homenagem com garantia de sucesso, certamente não é qualquer artista que consegue interpretá-las com a qualidade que Bárbara o fez.

Além disso, a cantora resolveu fugir das mais convencionais, e claro, não menos brilhantes composições de Chico. Bárbara foi extremamente feliz na escolha das canções. Quem já teve a oportunidade de vê-la cantando há algum tempo e assistiu ao show deste domingo, certamente percebeu o amadurecimento da cantora, que aos poucos vai abandonado o esteriótipo “gritante” das jovens cantoras da MPB – que mais parecem cópias em série de Elis Regina – e assumindo um estilo próprio, “gastando” sua voz na medida certa, o que como uma mera ouvinte de MPB considero raro e o mais difícil de se ouvir.

Os convidados também foram uma escolha acertadíssima. Com uma irreverência e com um estilo mais do que próprio de interpretar a passagem de Chico Preto pelo palco foi veloz, mas marcante. Não só pela interpretação irreverente e divertidíssima em “Biscate”, mas também porque livrou Bárbara do nervosismo aparente do início da apresentação. O mesmo aconteceu com a entrada de Giana Cervi no palco. Giana – que dispensa qualquer comentário – tem uma presença de palco contagiante o que mais uma vez contribuiu para que Bárbara relaxasse.

O que faltou? Na minha visão faltou direção e comunicação com a platéia. As canções poderiam ser melhores distribuídas. Houve uma seqüência relativamente longa de canções mais densas de Chico criando um clima intimista ao extremo em certos momentos e a diversão – com exceção da participação de Chico Preto logo no início –  ficou reservada mais para o final da festa.

Se a voz de Bárbara “dá e sobra” para cerca de uma hora e meia de Chico Buarque – que ressalto mais uma vez ser um mérito para qualquer intérprete de renome, ainda mais para uma artista tão jovem – faltou comunicação, com o público e com a própria banda.

A platéia queria Bárbara, pedia por ela, mas a menina pouco falou. Fora alguns tímidos “obrigada”, Bárbara deixou para o final uma fala rápida de agradecimentos, algo mais burocrático, parecia estar temendo uma platéia que – ao menos ao meu redor – era só elogios, mas pedia um pouco mais de atenção. Mas não foi somente a falta de diálogo, o corpo também precisa falar e o de Bárbara estava meio quieto, inseguro, coisas que só o tempo é capa de trazer.

Por isso, considero que apesar da falta desta direção, “Bárbara canta Chico”, foi um espetáculo muito bom, pois no final, a interpretação das canções superou estas falhas e fez com que o público saísse satisfeito e muita gente comentando que ainda queria mais.

Acredito que o mais importante a se falar é que quando Bárbara subiu ao palco neste domingo ela assumiu um compromisso com a platéia. O compromisso de melhorar cada vez mais suas interpretações, de seguir na escolha de um bom repertório e de interagir melhor com o público que tanto a admira. E isto é simplesmente fantástico. Nas raras produções regionais que se vê ultimamente com clássicos da MPB a grande vontade é mesmo de ir para casa e dormir, algo que certamente não aconteceu neste domingo.

Texto: Fabricia Prado – Jornalista
Foto: Guilherme Meneghelli