Uma egotrip curitibana ao som de Mariatchis

por Felipe Damo – especial para o blog Mundo 47 

Morar em Santa Catarina em outubro é uma experiência próxima do inferno no caso de você não curtir trajar um modelito alemão e mandar ver no chopp com salsichão ao som de bandas germânicas e suas marchinhas de dois séculos atrás. Mas como tudo o que é ruim pode piorar, o litoral catarina ainda contou nesse final de semana com o acústico do Roupa Nova. Acústico, todo mundo sabe, é aquilo que inventaram pra alavancar revival de banda falida. Então, nem pensar. Com esse diagnóstico a única saída foi escapar até Curitiba e assistir aos Mariatchis, que tocaram na noite de sábado no Lentilha Lounge Bar, acompanhado da banda Gianninis. O show estava marcado pras 22 horas, ou seja, para começar perto da meia-noite. Como cheguei cedo fiquei na frente do boteco de bobeira assistindo a procissão de tipinhos estranhos que formam a fauna local, cada qual com sua seqüela.  Do outro lado da rua foi grande a aglomeração de casais tentando entrar no Wonka Bar – uma espécie de fantástica fábrica de chocolates, só pode. Lá pelas 23 horas apareceram os primeiros músicos enquanto o movimento em frente ao Lentilha ainda era pequeno. Corrigindo: músicas. Eram meninas. “É uma banda de meninas”, me diz um malaco sentado na calçada.  “São meninas, mas tocam o diabo”, completou. Ah, tá, era a banda Gianninis.

 Templo do Axé – Resolvo entrar depois da meia-noite, quando o que é abóbora de fato já se transformou em tal. O Lentilha Lounge Bar, pelo que entendi, tem alguma relação com a dupla Feijão e Lentilha, precursores do axé em Curitiba. Ao menos era isso que levava a crer um banner gigantesco em uma das salas do bar, que contava a heróica história do coreógrafo Fábio Feijão, fotografado à exaustão em coletes espelhados a la Jacaré do É o Tchan. Dou uma olhada na cerveja pra ver se ninguém colocou algo dentro, mas é isso mesmo.  Tudo bem, depois de dupla sertaneja, agora tem dupla de axé, só pode ser o fim do mundo! Como outras pessoas notam o banner – que tem uma esfera de plasma no seu alto como se fosse uma auréola angelical – apontam e trocam comentários, eu volto a confiar na boa fé da minha cerveja e desligo do ambiente pra me atentar ao  roquenról que começa a tocar na vitrola. Aos poucos o bar vai sendo tomado e o pequeno espaço, que comporta lá umas 40 pessoas no máximo, fica pronto pra receber as bandas. 

Um híbrido de duas lendas – Os Mariatchis começam a festa comprovando a minha teoria de que ainda é possível fazer um bom e velho rock  com apenas uma guitarra, uma bateria, um contrabaixo e um vocalista devidamente pactuado com o capeta. O som dos caras é competente e logo todos, menos eu, cantam junto uma música atrás da outra. O vocalista dá um show à parte. Pra efeitos de comparação ele é uma mistura de Angus Young com Mick Jagger no visual roqueiro-pra-lá-de-básico. Agarrado a uma garrafa de Skol de 600 ml esse ser híbrido manda ver nos vocais, dança, pula e incita a platéia que responde à altura. Lá pelas tantas, ele pede no microfone: “- quem me dá um gole?”, e logo um copo com algum tipo de líquido não identificado chega ao palco pra alegria do rapaz. E a música continua. Enquanto o povo dança e canta o melhor do rock’n roll eu imagino Feijão e Lentilha fazendo uma coreografia “tchaco eu tô em cima eu tô embaixo” ao lado da bateria. Dou uma risadinha e uma mocinha pensa que é pra ela. Que maldade!Depois de umas dez músicas ou mais, uma garota loira de sapato preto-e-branco baixo com bico fino, daqueles ótimos pra pular, três anéis em uma mão e dois na outra, e mais uma coleção de pulseiras, brincos argolados e piercings, ajeita mais uma vez a blusa que teima em subir enquanto dança e grita com aquela que, seguramente, é a voz mais estridente da região metropolitana de Curitiba o mantra por todos conhecido: “TOCA RAUUULLLLL!!!!!” 

Era o que faltava pro Lentilha pegar fogo. Os Mariatchis distorcem a guitarra e mostram porque o Diabo é o pai do rock. Eu dou por encerrada a noite e termino a última cerveja. Não esquecendo do pedido do meu editor, solicito uma foto pra uma moça que tem uma câmera e registra toda a loucura em flashes e vou embora. Outra hora volto para Curitiba e assisto Gianninis. Fiquei devendo essa.

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Uma resposta to “Uma egotrip curitibana ao som de Mariatchis”

  1. C4 - Mariatchis Says:

    Valeu pela resenha matadora!!!! Apareçam mais nos shows!!!!!

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